quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Dia de Amar seu Corpo - 2011 -






Muito e pouco me vem a cabeça para falar sobre este dia; das muitas coisas que poderia e deveria falar. Ando meio de porre com este assunto.

Sou da geração que aprendeu na televisão a odiar o próprio corpo, que teve um breve vislumbre de esperança e abertura, mas que mergulhou na mesmice e na caretice.

Vejo os jovens cultuarem seus corpos dentro de uma artificialidade, onde toda a transformação corporal é uma violência enrustida, é vilipendiação do corpo. Lipoaspiração, plásticas, implantes, exercícios extenuantes, procedimentos médicos muito próximos à tortura e da irresponsabilidade médica. A saúde que deve ser almejada, foi substituída por um ideal de beleza física fora da realidade. A fotografias das revistas e na Internet são maquiadas eletronicamente, são irreais. Almejam o que não existe.

O que mais me assusta nisto tudo é a postura dos ditos profissionais, médicos que corroboram com as mentiras espalhadas pela mídia. Atribuem á obesidade malefícios que não existem de fato, que resvalam na paranóia coletiva. É claro que devemos buscar por uma existência saudável, mas a saúde mental é a mais importante de todas. Tudo deve estar dentro do razoável, da ciência verdadeira, não a patrocinada pelas grandes farmacêuticas, e do bem estar consigo mesmo.

Sou obeso, e tenho muita dificuldade de me olhar no espelho e não dizer: monstro. Anos e anos de massacre fizeram seu estrago. Mas tenho aprendido aos poucos a conviver comigo mesmo em paz.

Mas o que pega é que sou humano, não importa minha forma, minha cor, meu credo, meu gênero. O que importa é que sou humano em tudo o que isto significa.

O que importa que eu seja um “ente humano”, capaz de amar e viver a poesia.


#LYBD

Dia de amar seu corpo


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Exercício de criação 28





Seu Antonio.


Sentava-me paciente na sala para ouvir meu avô contar suas histórias. Tomávamos café e em minha mente construía mundos fantásticos. Fiz isto quase todos os dias por muitos anos.

Com o tempo minhas visitas foram escasseando. As histórias foram ganhando intervalos, até que começaram os silêncios.

Cismei que ia morrer, meu avô. Levei meu neto para que visse seu tataraneto. Demorou para entender o que aquilo significava. Mas contou nos dedos as cinco gerações que foram fixadas em uma foto. Cinco gerações juntas.

Via nos olhos de meu avô, uma alma que se afundava cada vez mais no ocaso. Balbuciava palavras no vêneto de sua infância.

Sentava-me na sala, para ouvir os silêncios de meu avô, até que não consegui mais ir. Quando se foi, eu não estava lá.

Um dia sentei na sala vazia. Permaneci ali por algum tempo em silêncio. Nunca mais visitei aquele lugar.

Não havia mais histórias para serem contadas.




Exercício de criação 28



Exercício de criação 27



vidros longos e lilases


Edson Bueno de Camargo

emerge da pedra
mãos em tesoura


a aranha mais antiga do mundo
de idade sem conta
cose o destino


bagunça dos elos entre as paredes
o mundo é um vaso trincado
cheio de nada


( marcianos observam tudo de longe
com seus vidros longos e lilases)


Exercício de criação 27
http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2011/08/exercicio-de-criacao-27.html



Exercício de criação 26 - passagem por Elk Canyon em Black Hills

"Giant Bluff." Elk Canyon on Black Hills and Ft. P. R.R.. It was created in 1890 by Grabill, John C. H., photographer.

http://www.old-picture.com/old-west/Locomotive-Steam.htm




passagem por Elk Canyon em Black Hills

Edson Bueno de Camargo


fotografias
prendem acontecimentos
no papel
memória transportável
fixada em tons de cinza

trem parado em Elk Canyon
descansam os trilhos
a locomotiva
vapor parado no tempo
uma senhora de luto
trabalhadores da ferrovia
a vida
tudo em suspensão para sempre

contadas muitas estações
passaram os vivos
enterraram o trilhos
cortaram os pinheiros
nasceram outros
nova floresta
velhas pedras

o grande muro de pedra
impassível
testemunho parado de montanha

quantas passagens por Elk Canyon
quantos olhos olharam o paredão
quanto sangue sioux correu aqui
aqui o Grande Espírito
também chorou os mortos
e cobriu de branco a terra
em luto

(e ao esquecimento
nos condenou)

estou diante da prata precipitada
diante de meu olho
a luz de dois séculos

Exercício de criação 26



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Exercício de criação 25 - Gambiarra Literária



almíscar

Edson Bueno de Camargo

um copo
tombado à mesa

as últimas gotas
nas bordas da toalha
leves cristais
nas pontas do rendado

no ar
um perfume almiscarado

(rastro de uma presença)





Exercício de criação 25

http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2011/08/exercicio-de-criacao-25.html





Exercício de criação 24 - Gambiarra literária



pitangas maduras

Edson Bueno de Camargo


seguir pelo asfalto molhado
até a trilha de outono
em que folhas miúdas
indicarão o caminho

se estivermos
na primavera
pode ocorrer
a presença
de pequenas flores amarelas

caminhe em passos lentos
sem pressa alguma

onde o chão estiver
forrado de pitangas maduras

estará lá minha casa





Exercício de criação 24
http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2011/08/exercicio-de-criacao-24.html