sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Cadáver delicado






 Dadinha Leal - instalação: Delicado Olhar: Ops!


Exercício surrealista

Cadáver delicado – oficina “Olhar poético sobre o urbano” – Casa da Palavra - 2012



a catedral me olha pela janela
lágrima do sorriso entorpecido
verde no azul se esvaiu
segredo e desejo escondido no subconsciente
são lamas escuras na nossa garganta
enquanto a rosa dos ventos beija a carne necrosada

as janelas da casa tem perfume
os peitos daquela negra parecem montanhas
daqui, dali, dançando a vida vai indo
indo e para onde vai mesmo?

a liberdade
não se enganem
sempre estará atrelada a uma prisão
quando os espinhos da morte dilaceram-me a alma imortal
banhado em sangue




Poema coletivo de:


Amandita Abreu
Edson Bueno de Camargo






Exercício de criação 37- Gambiarra Literária

http://gambiarraliteraria.blogspot.com.br/2011/12/exercicio-de-criacao-37.html








Gambiarra Literária

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Remoção das placas colocadas em área pública nas entradas e saídas principais da cidade de Mauá - SP - Brasil

Petição online:

http://www.peticoesonline.com/peticao/remocao-das-placas-colocadas-em-area-publica-nas-entradas-e-saidas-principais-da-cidade-de-maua-sp-brasil-com-do-dizeres-jesus-cristo-e-o-senhor-de-maua/734#signnow



Requeremos a remoção das placas colocadas em área pública nas entradas e saídas principais da cidade com do dizeres “ Jesus Cristo é o Senhor de Mauá” com base no Art. 19 da constituição Brasileira de 1988 uma vez que as mesmas ferem os princípios constitucionais de laicidade do Estado e de liberdade de culto conforme Art. 5º § VIII estabelecidos também nos  Art.s 1b e 1c da Lei Orgânica do Município de Mauá de 30 de março de 1990 .

Na letra da constituição fica claro:
Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;
II - recusar fé aos documentos públicos;
III - criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

Na letra da Lei Orgânica  do Município de Mauá se afirma:

Art. 1b  - O município reconhece o caráter multi-racial do povo e da cultura brasileira, implicando isso, nos termos da lei, dentro do limite de sua competência:

I – repudiar quaisquer forma de discriminação, seja por motivo de raça, credo religioso, convicções políticas, opção sexual ou atividade profissional.

II – garantir o direito à liberdade e à pratica de quaisquer manifestações cultual ou religiosa, independente de sua origem racial, social ou geográfica.

III – vedar a veiculação de imagens e de mensagens portadores de quaisquer formas de discriminação.

Art. 1c – É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício de quaisquer cultos religiosos e sendo garantida a proteção de seus locais e suas liturgias (emenda 40)

No referido monumento/placa  se abrigam os dizeres “Jesus Cristo é o Senhor de Mauá”. É bem sabido que existem outras religiões que não o cristianismo sendo professadas em nossa cidade, desde as mais tradicionais e teocêntricas como o judaísmo e islamismo até cultos neo-pagãos e animistas, além de religiões afro-brasileiras, que têm a liberdade de culto garantida no bojo de nossa constituição:

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

            Estes cultos devem ocorrer sem o embaraço das autoridades, como afirma o Art. 19 da Constituição, a referida placa/monumento causa constrangimento aos cidadão não cristãos, uma vez que em área pública afirma que “Jesus Cristo é o Senhor de Mauá”, cujo texto é discriminatório, não delimitando as conseqüências aos não seguidores do referido Cristo, quer para suas propriedades e bens quer para as suas garantias pessoais de segurança e vida. Não sofreram os próprios cultos evangélicos perseguição religiosa no período Imperial, onde havia uma religião de Estado em detrimento de qualquer fé?
              
“Para Rui Barbosa, "de todas as liberdades sociais, nenhuma é tão congenial ao homem, e tão nobre, e tão frutificativa, e tão civilizadora, e tão pacífica, e tão filha do Evangelho, como a liberdade religiosa."
“No Brasil, a separação entre a Igreja e o Estado foi efetivada em 7 de janeiro de 1.890, pelo Decreto nº 119-A, e constitucionalmente consagrada desde a Constituição de 1.891. Até 1.890, o catolicismo era a religião oficial do Estado e as demais religiões eram proibidas, em decorrência da norma do art. 5o da Constituição de 1.824. O catolicismo era subvencionado pelo Estado e gozava de enormes privilégios. (Fernando Machado da Silva Lima)”

            Portando em não havendo uma religião de Estado no Brasil, sendo afirmada a liberdade de culto pelo Art. 5º  § VIII de nossa Constituição e Art.s 1b e 1c da Lei Orgânica do Município de Mauá de 30 de março de 1990,  requeremos a retirada da referida placa/monumento. 








quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Resposta a enquete de Cláudio Willer.




O que fazem os poetas? Como criam?

(enquete Cláudio Willer)

Pergunta complicada de se responder, assim, tenho que parar para pensar.

O poema surge de muitas formas, algo que me instigue, um desafio, uma frase ouvida de soslaio, um exercício proposto por amigos, uma conversa na Internet. Mas, via de regra, o poema vem em um insight, uma frase soa dentro de minha cabeça, algo como um sussurro, que deve ser imediatamente anotada, caso contrário vai embora do mesmo jeito que surgiu; por vezes acontece o encadeamento de versos assim que a frase é anotada, vão se desfiando palavras e mais palavras, anoto tudo da maneira como vem,  sem preocupação estética ou de correção ortográfica. Este material é devidamente guardado, em caderninhos, bilhetes enfiados nos bolsos, folhas soltas, esquecidos na mesa de trabalho.

Há poemas, raros,  em que nada deste processo é usado, alguns nasceram prontos, em geral hai-kais, e outros mesmo sem terem sido anotados, permaneceram  no grito original, nunca esquecidos.

Em um segundo momento este material é digitado, o que pode acontecer imediatamente depois da escrita, ou dias depois, ou meses depois. A primeira ação a ser realizada é a correção ortográfica e gramatical do texto, neste momento outras palavras e frases podem ser agregadas, ou apagadas seqüencias inteiras. Em outro momento, verifica-se o ritmo do texto, o uso de quebras dos períodos, a aglutinação em versos. Muitas vezes o primeiro texto desaparece sob as correções e alterações, surge um novo. Já aconteceu do material de sobra, assim por se dizer, gerar um novo poema. Outras vezes, dois poemas se aglutinarem em um só.

Isto pode se repetir muitas vezes, até que chega o momento de parar, em um determinado momento dá-se por pronto (ou não, o texto é meio que vivo e orgânico).
A forma final do poema se dá  a partir da leitura em voz alta. Como uma espécie de processo de afinação das palavras e sons. 

O terceiro momento é passar o poema para primeiros leitores, que ajudam a apontar incoerências e erros que porventura possam ter passado desapercebidos.



Edson Bueno de Camargo








segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Paternidade.







Sou meio danado com estas efemérides, tem tanto apelo comercial e mercadológico, que dá até raiva.

Esse negócio de pai é muito complicado, sempre tive uma relação conturbada com meu velho, e apesar de eu ser um puta fracassado e que não fiz nada do que ele quis ou planejou para mim, o velho tem um baita orgulho do filho poeta, que tem livro publicado, recebeu prêmios, todas estas coisas, apesar dele não fazer a menor ideia do que seja ou signifique bem isto. (Nem mesmo eu sei).

O certo é que quando temos os nossos próprios filhos, a coisa muda de figura, passamos a encarar a realidade de uma forma diferente, temos que crescer na marra, e a maturidade não vem com manual de instruções. Muitas vezes erramos na dose ou de disciplina ou de condescendência. Muitas vezes permanecemos em silêncio, quando uma palavra é esperada. Muitas vezes falamos, quanto o que se esperava era um ouvinte. E graças aos deuses todos que erramos, e sempre temos a possibilidade de reconsiderar, e recomeçar, e conversar.

Sou muito mais amigo de minha filha que deveria ser. Às vezes penso que deveria ter sido mais pai.

O certo que fui compreender a paternidade no dia em que nasceu meu neto, então caminhei na trilha da ancestralidade, e um arrepio na espinha me fez ter entendimento, como se passassem por mim todas as almas que carregamos desde o grande início em algum ponto do tempo.

Um neto faz resinificar ser pai, e para meu pai um bisneto foi um momento que significou sua existência, nunca ficamos tão próximos, nem mesmo na tragédia que um dia se abalou sobre nos.

A paternidade nos coloca definitivamente no ciclo da ancestralidade, passamos a ser responsáveis pela nossa linhagem que vem desde tempos idos e sem interrupção.

Diante da ancestralidade a morte não significa nada.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Falando de eleição e cultura.




Outro dia um camarada muito querido, dos tempos das boas lutas que hoje a mídia tenta desmerecer e desqualificar; respondeu a minha milionésima fala a respeito da ausência de Politicas Culturais em minha cidade, que as coisas não aconteciam porque pessoas como eu havia abandonado a vida pública e a ação política, porquanto não exigiam seu espaço, e permitiam que outros o ocupassem.

Em partes até concordo com este discurso.


Por outro lado, o que me fez desanimar da política, foi justamente esta lógica. Nos dias que se seguem, em plena campanha eleitoral, acontece uma batalha silenciosa e invisível, que nem todos se dão conta, em todos os grupos políticos, partidos, e tudo o que circula o poder. Grupos e pessoas, tentam por todos os meios lotear a possível vitória, arranjos são feitos no calor da campanha, promessas de cargos e empregos que nem sempre poderão ser cumpridas. Isto me dá um tremendo enfado.

Fazem parte do jogo estas manobras, são são injustas, muito menos ilegais, algumas resvalam na falta de ética, mas acabam por desqualificar qualquer possibilidade de uma ação concreta na solução dos problemas da cidade. A Cultura é a prima pobre, e diluída no meio de tantas "necessidades", some ou morre. Só é lembrada como espetáculo, nunca como formação ou reforçadora de ações populares, só é lembrada pelo viés populista.

Quando o assunto é Cultura então, entra para os assuntos periféricos e diluídos. A Cultura se dissolve entre os tantos problemas da cidade. Em geral, sobram para os cargos do setor de Cultura não os especialistas ou envolvidos na área, mas o primo maluco que o prefeito quer colocar longe do gabinete, ou o candidato a vereador que fez aquele acordão, em suma o rebotalho.
E por último, esta dinâmica perversa exclui as pessoas que realmente estão interessadas e que poderiam dar sua verdadeira contribuição, mesmo que em aspecto voluntário (embora isto é outro assunto disparatado que vale uma conversa), pois cai em um liame retorcido de realidade. Os órgãos já nascem com o vício das vaidades inflamadas e o somatório distorções de funções.
Vou votar em um dos candidatos, por um caráter republicano e cidadão, até já me decidi, mas sem a certeza que a Cultura será realmente contemplada.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Três perguntas a Marcelo Novaes - respostas revisadas e complementadas.



Entrevista:
 
 
 
Edson Bueno de Camargo: 1.Você acredita ainda ser possível a poesia em tempo de crise? Ou Adorno estava certo e não foi mais possível o poema depois de Auschwitz?

MN: Escrever poemas de Poliana, não. O pior do humano já veio à luz. Mas o poema pode atrair a atenção para o pior do humano para que nos cansemos dele, deste pior. Alguma mudança pode vir pelo cansaço ou pelo nojo. 

EBC: 2.Outro dia 
li que o mundo atual não permite às pessoas o exercício do humano, até que ponto você acredita ser isto verdadeiro, e até que ponto a arte e a poesia nos permitem este exercício do humano? 

MN: O humano inclui tudo, inclusive o pior do humano a que aludi acima. Os tempos de hoje me parecem como a abertura de um grande bueiro: a cara que estupra a garota na festa filma e põe no You Tube. Ficamos sabendo não só do crime, mas do exibicionismo do rapaz sádico. O pai da vítima e o pai do algoz não poderão desconhecer o fato. O pai do algoz não poderá alegar inocência de seu filho, a não ser fraudando os próprios olhos e consciência. O mesmo se aplica a agressão de gangues [futebolísticas ou pseudo-ideológicas], brigas escolares, pedofilia, o diabo a quatro. O artesanato do melhor do humano é trabalho voluntário, solitário, que se impõe e imprime [ou não] a cada indivíduo. Alguns artistas podem contribuir com sua fração infinitesimal para a evocação dessa vontade de construção do “exercício do bom e do melhor do humano” com seu trabalho de formiguinha. Muitos outros só espelharão os modos e valores de nosso tempo.

EBC: 3.Um conhecido escritor paranaense afirmou que para um autor sair da invisibilidade, basta só ser bom; que isto acontecia: acredita nisso? Ou existe muita gente boa por baixo do manto da invisibilidade?


MN: Este escritor parece "estar nos tirando".  [Cê tá me tirando , tiozinho!]. Parece crer em alguma equação bastante simplória entre mérito e reconhecimento, ou entre mérito e recompensa. Onde você encontra isso, na vida de todo dia: no serviço público? Na política? A meritocracia vige nesses âmbitos da vida? As instituições sociais premiam os mais talentosos? Bom, este fulano deve viver em outro mundo, onde Van Gogh pintaria quadros que seriam imediatamente aplaudidos, e não por ele mesmo, Van Gogh, crer no valor intrínseco de sua arte, mas também com o respaldo de outros que igualmente creriam na mesma.. Num mundo onde escritores como Augusto dos Anjos, Camilo Pessanha, Cesário Verde e mesmo Fernando Pessoa, teriam suas visibilidades, sim, mas não só post mortem. Livros reconhecidos em vida. Acredito, Édson, que, em nossa literatura do anonimato e cartas marcadas, do tapinha nas costas sem exposição corajosa do admirador que "prefere permanecer na coxia" [ou na cocheira] nunca ouviremos falar de muitos bons escritores, e que isso seja mais comum do que suspeita o simpático paranaense citado por você. Então, se você pensar numa visibilidade fora da linha do tempo da biografia do autor, além-de-seu-tempo-de-vida, pode ser que “algum dia o talento não passe em branco”. Mendelssohn redescobriu Bach, que era ignorado no tempo de Mendelssohn. Falei de música e pintura deliberadamente, porque isso pode se dar em qualquer arte. Os viéses de mercado, propaganda, divulgação da “persona literária” [o performer colocado à frente do escritor], apadrinhamentos, parentescos e que tais, tudo isso são viéses demasiado humanos que o paranaense pretende ignorar, fazendo tabula rasa da história, antropologia, psicologia de massas. O mérito e o reconhecimento podem ser unívoca e temporalmente co-associados em algum plano acima do nosso, mas não neste planeta. Talvez o paranaense esteja nos visitando de alhures. Um Uraniano em missão.